terça-feira, 14 de junho de 2011

É preciso silêncio...

Mulher na janela - Salvador Dali



Para colher silêncio
há que suspender a palavra.
Se travada na garganta,
o sabor doce do sal
é mar desviado dos olhos.
Depois, se mente um riso
para povoar a boca
em desuso.
Bartolomeu Campos de Queirós

quarta-feira, 18 de maio de 2011

"Poesia sem pele", Lau Siqueira




Hoje, tive a honra de participar do lançamento do livro de poesias "Poesia sem pele", do poeta gaúcho, mas também paraibano de coração, Lau Siqueira. É desse livro que transcrevo aqui um de seus poemas, também postados em seu blog "Poesia sim". Deliciem-se:


Curupira
Lau Siqueira

o medo é um galope saindo das trevas
como quem foge não sabe de quê

o medo é um sol imenso no céu
e uma boca escancarada para a sede

o medo é a possibilidade de enfrentá-lo

sábado, 7 de maio de 2011

Igualdade é liberdade?

Adão Ventura



Negro forro


Adão Ventura





minha carta de alforria


não me deu fazendas,


nem dinheiro no banco,


nem bigodes retorcidos.





minha carta de alforria


costurou meus passos


aos corredores da noite


de minha pele.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Eu sou como eu sou


Le Cap d'Antibes - Monet


Cogito

Torquato Neto


eu sou como eu sou

pronome

pessoal intransferível

do homem que iniciei


eu sou como eu sou

agora

sem grandes segredos dantes

sem novos secretos dentes

neta hora


eu sou como eu sou

presente

desferrolhado indecente

feito um pedaço de mim


eu sou como eu sou

vidente

e vivo tranquilamente

todas as horas do fim.

domingo, 27 de março de 2011

Um belo poema!

Escher
"olho muito tempo o corpo de um poema"

Ana Cristina Cesar


olho muito tempo o corpo de um poema

até perder de vista o que não seja corpo

e sentir separado dentre os dentes

um filete de sangue

nas gengivas

domingo, 13 de março de 2011

Tudo é mar!


Beira-mar
Cecília Meireles

Sou moradora das areias,
de altas espumas: os navios
passam pelas minhas janelas
como o sangue nas minhas veias,
como os peixinhos nos rios...

Não têm velas e têm velas;
e o mar tem e não tem sereias;
e eu navego e estou parada,
vejo mundos e estou cega,
porque isto é mal de família,
ser de areia, de água, de ilha...
E até sem barco navega
quem para omar foi fadada.

Deus te proteja, Cecília,
que tudo é mar - e mais nada.